Começou com o "não". Ai que palavra tão fácil de dizer, tão bonita, tão bem torneadinha. Eu compreendo perfeitamente que ele goste muito de a usar, é uma palavra curta, redondinha, até dá gosto dizê-la: nnããõo.
Mas já não é tão boa de ouvir. Isso não.
O problema é que "não" é a sua resposta por default. Todas as respostas são não, até que ele pensa um pouco e lá me dá a resposta definitiva. Que muitas vezes é...
não.
Por acaso, a forma como ele a diz é castiça, na sua voz fininha de falsete, "nhão". E baixa o queixo e franze o sobrolho. Com variantes muito giras, entre compassos de espera, "nhão" muito rápidos e "humm... nhão".
Eu rio por dentro e respondo "Xim xim".
Depois veio o "quero". Dito ainda não, mas bem transmitido: quer o livro do Rato Renato, agora já quer o do Coelho Martim, depois o do Pedrito Coelho, depois o "Kuti" do coração. Quero comer sozinho, quero o Alfa no podI, quero água, quero o cão Marron, quero a mãe, quero o pai. Às vezes fica contente, outras vezes fica irado, às vezes não era nada disso, mas eu não sei o que seja, às vezes duvido que ele saiba.
E a combinação infernal "não + quero"? Brutal. Essa agora tem muita saída, ele não perde uma oportunidade. Não quero comer, não quero ir para o banho, não quero ir para casa, não quero deixar de ver o Panda.
O raio do Panda.
Esta minha criança só passou a ver televisão a sério há pouco tempo. Nem eu sei bem como, ele não via o Panda, só há alguns meses conheci o Cavaleiro Mike, as novas versões do Babar e do menino Nicolau, o Figuito (????), o Cid Ciência. Não entravam na nossa programação habitual. Agora sim.
E se por um lado sabe bem o miúdo acalmar com um pouco de TV, mesmo porque posso tratar de outras coisas entretanto, por outro lado incomoda-me um pouco que fique tão vidrado naquilo. Vidrado. Zombie.
E poderia estar horas em frente à TV, apenas se levantando de vez em quando para a desligar e ligar ou procurar o comando para carregar nos botões, procurando em vão o Ruca, o Alfa ou o Uki.
Pior. Agora está viciadíssimo. Só quer Panda, só pede Panda. Acorda a pedir o Panda. Foge de todo o lado para ir ver o Panda. Anda completamente obcecado. Se o tiramos da frente do Panda chora, esperneia, fica do mais ofendido.
Está na hora de fazermos uma detox de Panda. Oh mundo cruel, no que eu me vou meter!