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terça-feira, 28 de maio de 2013

Da descrição (ou discrição) do amor

Às vezes eu leio autênticos romances de cordel sobre o amor desmesurado, a paixão desmedida, o instinto imediato que é lei absoluta e inequívoca, o rush de emoção a cada olhar desde o primeiro momento em que mães extremosas põem a vista em cima dos seus filhos recém-nascidos, que eu poderia ficar a pensar que seria menos mãe por o meu amor ter nascido com calma, sem arrebatamentos, sem rushes de paixão, mas gradualmente e como uma coisa natural, tranquila. Simples.
Quando o meu filho tinha meses de idade o meu sentimento era de muito amor, mas a verdade é que não me limitava a amá-lo, contemplá-lo, aspirá-lo, todos os momentos de todos os dias. Nem isso era real, nem seria exequivel, nem eu queria para mim. Eu não queria estar de roda do meu filho o dia todo e eu não podia, mesmo que quisesse. E isso nunca faria o meu amor ser menor, ou menos autêntico.
A verdade é que eu também me ocupava muito de outras coisas mais mundanas como por exemplo... eu ou o meu trabalho. Ou ainda desencantar a melhor forma de o fazer dormir ou comer ou não chorar e isso não poderia passar apenas pelo que me ditava o instinto - embalá-lo eternamente nos meus braços era mais uma cena camiliana que não poderia passar para a realidade do dia-a-dia e do crescimento saudável dele e sustentável para mim, era mais que evidente.
Quando o Pedro finalmente adormecia eu queria finalmente fazer alguma outra coisa, eu queria ir à minha pessoa, às outras pessoas, ao meu trabalho, à internet, à televisão, aos livros, e, pasme-se, muitas vezes infelizmente para ler sobre coisinhices de puericultura, porque o meu instinto maternal não é instinto, é intuição, e essa intuição, essa reacção instantânea nasce de um palpite que vem do inconsciente e é criado pelo saber acumulado.

Por isso, ler esse relatos camilianos não só me parece um pouco exagerado, um pouco histriónico, a ponto de só me apetecer dizer - menos querida, menos! - mas sobretudo deixa-me um pouco preocupada por quem, não tendo filhos, ou mesmo tendo filhos, acha que esse filtro cor de rosa neon é lei, e se sinta mal por o seu amor ser... Calmo. Sereno. Natural. Ou ainda não o sentir como amor, mas como laços que se criam e levam o seu tempo a criar, com um pequeno ser estranho que gerou mas que tem uma existência própria que foge ao seu conhecimento. E isso lhe cause medo, inquietação e reserva perante esse pequeno ser seu, mas ainda um doce desconhecido.
Também me inquieta por quem ainda não sinta (ou nunca sentiu) esse tal do institino maternal como a voz da sua consciência, quem não o oiça a cada passo, quem se sinta com dúvidas, receios, inseguranças e sem patavina de ideia sobre o que fazer acerca algo que lhe parece básico ou muito complexo.

Ninguém se sinta mal se o que sente pelo seu filho for um amor calmo e não um êxtase contínuo. Se as úncias taquicardias que sintam sejam quando o miudo faz asneira da grossa ou se põe em perigo, não quando o contempla a dormir, ou quando o enche de beijos. Se nessas alturas, não sente o coração a explodir de paixão, mas apenas alegria e contentamento, divertimento, nada de excessivo e arrebatador.
Ninguem se sinta mal se não têm o diabo do instinto maternal afiadissimo e sempre a falar dentro de si, qual grilo falante, a comandar cada acto do seu dia, a dar certas e inequivocas decisões sobre tudo.
Tudo isso mais me parece esquizofrenia do que natureza.

7 comentários:

S* disse...

Não deixas de ser mulher, amante, profissional e tudo mais "só" porque és Mãe. O amor por um filho é a coisa mais valiosa do mundo, certamente, mas não podemos ser só mães. :)

Ana disse...

Eu senti isso sobretudo no pós-parto... Mas foi de uma forma muito natural que eu sabia que não conseguia sentir essa paixão arrebatadora, não conseguia dizer sequer a palavra "filho". Foi, é e será sempre muito desejado, mas é o primeiro, e eu como que não acreditava que já era mãe. Como também assim foi com a barriga (demorou algum tempo a mentalizar-me que estava mesmo grávida), achei normal dizer "bebé" e não "filho" a toda a hora como a minha companheira de quarto, mãe de segunda viagem.
E digo isso a todas as minhas conhecidas grávidas, para que saibam que é natural e não se sintam pressionadas a fazer parte da tal história de novela.
Quanto aos meses seguintes, sempre fui muito calma, e senti que o amor e a ligação foi crescendo, alimentando-se dos dois lados, mas confesso que não o largava. Não por obrigação, mas por prazer, por consolo... passados os primeiros tempos de cansaço e falta de sono, fazia as minhas coisas, claro, mas levava-o comigo frequentemente... uma escolha pessoal! Eu acho que fui assim porque demoro a interiorizar e sentir os momentos e este momento é o maior deles todos.
Concluindo, concordo com tudo e dou-lhe os parabéns por trazer este assunto aqui, aliviando assim o peso e até algum sentimento de culpa de muitas mães.

http://tenhoumrapaz.blogspot.pt/

Elix disse...

Ainda há pouco tempo falava isso lá em casa. Eu quando vi a minha filha pela primeira vez gostei dela, senti uma ligação, é minha, tinha saído de dentro de mim, tinha-a sentido durante meses... mas não tenho duvidas que o amor incondicional que sinto hoje foi crescendo no dia a dia, com calma com momentos com trocas, partilhas e vivências... O que senti pela minha filha no dia que ela nasceu é só um bocadinho do que sinto hoje.
Acho que realmente nos pressionamos muito e achamos que devemos logo sentir um grande amor, podemos sentir ligação mas acho que amor é uma coisa que se constrói...

karrapetas disse...

Excelente post! Apesar de eu me sentir do outro lado, o amor que senti pelo Mateus, esse amor arrebatador, forte , muito forte, muito maior do que alguma vez pensei que fosse, não tinha nada de calmo e sereno.
Mas acredito que o "sentir" não é igual para toda a gente e isso não quer dizer que uns amem mais que outros.
Um beijinho nosso e as maiores felicidades

Melancia disse...

Acredito na explosão de amor à primeira vista, senti-o no primeiro momento que me puseram o Diogo no colo, senti um amor imenso quando o puseram na mama uns minutos depois. Mas claro que o amor foi crescendo ao longo dos dias e, não existe sequer comparação possível aquilo que sinto hoje com o que senti há 2 anos atrás...
E agora veio o Miguel, segundo filho e eu, cheia de medo de não amar igual. E confirmou-se... Foi tudo tão mais calmo no meu coração, mais sereno, mas igualmente bom e quente.
A verdade, é que acredito que há tantas formas de deixar vir o amor que todas serão igualmente válidas!

Elaine Peixoto disse...

Divina postagem!

Ser mãe e ser mulher, ambos possuem os seus detalhes, mas, são amores que devem ser alimentados diariamente, assim como uma plantinha que é regada todos os dias. Apesar das tempestades né!

Beijocas,

Tany disse...

Gosto e identifico-me a 1000%. Tinha até receio de falar disso, achava não ser normal por tudo o que se le por aí, mas afinal não aconteceu só comigo e é normal esse tal amor ir crescendo aos poucos...

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